terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Aparição amorosa

Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.

Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.

Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platônica no espaço?

O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.

Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.



Carlos Drummond de Andrade

sábado, 26 de dezembro de 2009

Carpinejar



Temos o costume de considerar bonita a letra que se entende. Mas a personalidade está no garrancho - Carpinejar -

DESCONHEÇO A AUTORIA DA IMAGEM

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Tarde de sexta-feira qualquer



Uma tarde que poderia ser como qualquer outra, mas tem no timbre quase um poema, um som leve que me faz viajar nas paredes do meu sonho.
Sinto uma paz como há muito não sentia, algo como uma mistura de asas volitando na barriga e plumas acariciando meu instinto.
Sinto-me menos humana, quase fada, parece que agora tudo que quero, posso ter...
Olho pra janela e vejo um céu acinzentado, brando, parece que o mundo parou de respirar, ou está naquele estágio de sono profundo, prudente.
Olho pras minhas mãos e as vejo perfeitamente ‘feitas’ pintadas como gosto, com o capricho cintilante que só minha manicure consegue.
Nesse instante tomando um gole de chá, escrevo para mim mesma, pra me ouvir...
Sinto um total desprendimento de espírito como se pudesse nesse minuto de tempo, flutuar e dançar rodopiando feita bailarina em seu solo, quase cisne, quase tão bela quanto esse tímido sol que estou a ver agora nesse finzinho dessa sexta-feira ‘qualquer’.

texto & imagem by Solange Mazzeto

quinta-feira, 26 de novembro de 2009

O Olhar

Quem vê, vê o que vê, enxerga o lado esquerdo ou o direito, vê o tempo arredondar ou enfeitiçar, sente arrepios ou a libertinagem chegando de mansinho, querendo navegar.
O olho qual câmera anônima registra tudo, guarda e depois na cabana do sonho, se põe a recordar.
E na memória ali... a fotografia da mente vira semente e quer ir logo brotar.
O olhar tem quase cheiro que atiça o ronronar, qual gata ou gato faz o peito brilhar.
Acende fagulhas, desmemoria o ruim, o olho atravessa milhas só pra encontrar um lago sereno com bolhas de sabão colorindo o azul do mar.

by Solange Mazzeto

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

A visceral vontade

goles de saliva
produzem um [d] efeito
devastador


by Solange Mazzeto

sábado, 14 de novembro de 2009

De Mário Quintana



Os antigos retratos de parede
Não conseguem ficar longo tempo abstratos.
Às vezes os seus olhos te fixam, obstinados
Porque eles nunca se desumanizaram de todo.
Jamais te voltas para trás de repente.
Não, não olhes agora!
O remédio é cantares cantigas loucas e sem fim...
Sem fim e sem sentido.
Dessas que a gente inventava para enganar a
Solidão dos caminhos sem lua.




(do livro "Esconderijos do Tempo -
de Mário Quintana)

imagem by Solange Mazzeto

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Aceito

aceito o vento
que entre as entranhas
seca a lágrima do desejo

aceito dividir o tempo
em dois mil andares
pra chegar [...]

aceito tua palavra
como bálsamo
onde [te] lambo

te aceito
como é
porque?
te amo


texto by Solange Mazzeto

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Alta Voltagem



me olha e me
retorna

rodeia [em mim]
o macho
que existe em
você

gosto de
lagartear
no seu
ombro

gosto de me
esparramar
lentamente em
você

pensa em
mim?
agora...

diz que sim
sei que sim

buracos negros
são só
buracos negros

que não se
aprumam
com mãos no
ventre
pra você


texto by Solange Mazzeto


DESCONHEÇO A AUTORIA DA IMAGEM

domingo, 8 de novembro de 2009

Quase Natal [de novo]





Quase Natal [de novo]

Parece brincadeira, o tempo anda correndo veloz que nem foguete indo pra lua. Dá susto, juro que me dá susto. Não sou tão ‘antiga’ e nem tão ‘menininha’, mas lembro que meus Natais demoravam a chegar, esperava ansiosamente o presente de Natal, onde a Empresa Estrela lançava uma boneca ao ano, e onde o gibi do Tio Patinhas era grandão e eu ficava horas lendo e relendo.

Naquele tempo Panetone era feito uma vez ao ano, ou seja, no Natal e era tão mais gostoso do que hoje, agora você vai às padarias e o ano todo tem panetones...

Está tudo tão modificado, que sinto algo estranho dentro de mim, parece que a magia natalina se mudou pra muito longe, longe demais, faz tempo que as pessoas andam virando ‘plástico’ e plástico ‘jogado’ na natureza causa destruição.

Acho que ainda temos tempo de revertermos isso, sentir de novo a terra nos pés, lembrar que somos natureza, que somos ‘bichos’.

Sabe, sinto algo parecido com medo quando percebo que falta ‘cheirar’ as pessoas, sabe que nem bicho que cheira o outro? Que sente o outro?

Ainda bem que eu tenho ‘esse bicho’ latente em mim, que meu instinto animal ainda prevalece, [embora esteja escrevendo tudo isso pra me fazer lembrar...]

Gosto da minha identidade ‘in natura’, ainda gosto de sair na chuva e molhar o corpo, ainda sinto prazer nas pequenas demonstrações que a vida me oferece.

Arre gente, que nostalgia, o Natal está de novo batendo na janelinha, fazendo sinos tocar, cantando uma musiqueta [quase ao som da lambreta, tô antiga!] querendo nos acordar!


by Solange Mazzeto
imagens: google

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Tua alma é bela

o luto me esconde o sorriso
um negrume disse...
coisas no ouvido

amordaçaram minha boca

ouvi sinos tocando
será imaginação?

me disseram: tua alma é bela


mas me sinto fera
quase estou leoa no cio
querendo matar o prazer que sinto


by Solange Mazzeto

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Tem dor



tem dor que dói tanto
que a gente se sente como cortada em fiapos
se sente um frangalho humano
perdido
com a ponta do nariz vermelha

a dor incomoda e parece coçar

e a dor queima e fica preta
vira cinza
vira nada


texto e imagem by Solange Mazzeto

sábado, 31 de outubro de 2009

Cada dia, cada hora...cada vez



cada dia tem uma função
que me engloba e me embeleza
onde faço do meu sonho
um soneto e uma realidade

cada vez que acordo e me mexo
sinto o poder da Vida

cada hora que posso pensar
e [re] aprender
me animo diante daquilo que [ainda] não sei

cada palavra avessa que ouço
despejo pro limbo
cada palavra que meu ouvido sorri
ao ouvir
coloco um sino
pra poder [re]partir

com
você
...


texto by Solange Mazzeto
desconheço a autoria da imagem

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Se necessário for



se necessário for
sobrevoo minha angústia
apanho flores no quintal
recolho-me em fitas
desdobro-me em rappel

se necessário for
nem te peço boa noite
uso minha imaginação
com o som da ilusão
e escuto-te

se necessário for
amanheço igual à flor
com gotas de orvalho
[na face]


by Solange Mazzeto
desconheço a autoria da imagem

domingo, 25 de outubro de 2009

Visto-te

visto-te
de
beijos

cada qual
lambida

enobreço

tua imagem
varre-me
de
maus presságios

você é
todo [meu] desejo

dentro... fora
de
meu sexo

que bate
palmas

ao te ver...



by Solange Mazzeto

Forasteiro

Uma música da 1ª peça teatral que participei

http://www.youtube.com/watch?v=1DbhraBc9iw

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Pegadas

seriam pegadas
na areia
pés descalços
mãos no chão
terra vermelha

seriam frases
de uma boca
que
deixa
pernas soltas
e...
leves

seriam aromas
de deixar
o
fôlego invertido

poderia ter sido
filme
em
branco e preto
ou colorido

mas foi só...
amor mexicano
sem bigode comprido
com sotaque americano

by Solange Mazzeto

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Ceder para conquistar

Ceder para conquistar

"SEJA FLEXÍVEL PARA CONQUISTAR", É UMA REGRA DE OURO. PODE SER DIFÍCIL PRATICÁ-LA, MAS DEVEMOS TREINAR A NOSSA ÍNDOLE E EDUCAR A NOSSA MENTE NESSE SENTIDO. EM ALGUNS CASOS, É PREFERÍVEL APARENTAR IGNORÂNCIA OU MESMO PERDER UMA DISCUSSÃO. QUALQUER POSSÍVEL HUMILHAÇÃO FICARÁ GRAVADA APENAS NA MENTE E POR UM PERÍODO TEMPORÁRIO. COM O PASSAR DO TEMPO, A OUTRA PESSOA PODE COMEÇAR A COMPREENDER A VERDADEIRA SITUAÇÃO E MUDAR DE ATITUDE. PODE-SE PENSAR: "EIS UMA PESSOA SINCERA", COMEÇA A ACREDITAR EM VOCÊ E ATÉ MESMO A ADMIRÁ-LO. TENDO APARENTEMENTE VENCIDO UMA DISCUSSÃO, O SEU ADVERSÁRIO SE TORNA INSEGURO POR NÃO FAZER IDÉIA DO QUE VOCÊ TEM EM MENTE. ASSIM O DERROTADO SE TORNA VENCEDOR E É POR ISSO QUE, ÀS VEZES, É PREFERÍVEL DEIXAR QUE OS OUTROS PERSISTAM EM SUAS IDÉIAS.

TENTAR IMPOR AS NOSSAS OPINIÕES É UMA PSICOLOGIA INÁBIL. AINDA QUE ESTEJAMOS CERTOS, NÃO DEVEMOS DESNECESSARIAMANTE INSISTIR EM ARGUMENTOS A NOSSO FAVOR. APRENDENDO A CEDER EM DETERMINADAS CIRCUNSTÂNCIAS, ACABAREMOS VENCENDO, PORQUE
NOS ATIVEMOS AO QUE É JUSTO E VERDADEIRO.

(Mokiti Okada, Fragmentos de Ensinamentos de Meishu-Sama)

domingo, 30 de agosto de 2009

Uns vídeos da Banda Moral e Bons Costumes [amigos meus]

http://www.youtube.com/watch?v=Zf_kv0CendQ

http://www.youtube.com/watch?v=wVTcguOaNFs

domingo, 23 de agosto de 2009

Sacudidela

mente brota
no desafio do dia que acorda

um coração que levanta angustiado
sem dar conta da lição

a carne grita

uma alma rodopia livre
no curral


by Solange Mazzeto

sábado, 22 de agosto de 2009

Cozinha! Lugar de feiticeira?




Quer lugar melhor? Um cheiro de mãe, um tempinho pra tirar o chapéu, sentar e prosear.

Cozinha é o lugar mais mágico pra mim, gosto da ‘música’ que há ali, uma alquimia certa, ou quase certa, lembro-me dos meus primeiros bolos, eram duros, um tanto queimados nas bordas, as assadeiras de minha mãe eram todas retangulares [até hoje são], não gosto de bolo quadrado e nem retangular, gosto de bolos redondos, parecem sem fim, são mais generosos, as bordas são macias...

Comida é algo formidável de se fazer, você faz um arroz e ele sai soltinho, branquinho, ainda gosto de cortar as cebolas, amassar o alho, não uso temperos prontos, não tem graça, e uma vez eu li, que toda vez que se corta uma cebola numa casa, retira-se doenças da mesma casa. Pelo sim, ou pelo não, corto-as diariamente.

Hoje fui à feira, e uma mulher vendia alho já descascado, sei que os tempos mudaram e tem muita mulher que não tem tempo de descascar alho, sei das modernidades todas existentes no mercado, sei que por vezes, não tenho tempo também, mas arrumo tempo, uma coisa que faço? Quer saber mesmo? Quando com pressa, pego o alho, lavo bem e coloco no amassador de alho com casca e tudo, a casca fica e o alho sai em pedacinhos...

E tem mais um detalhe, a casca do alho é medicinal, tem ricas propriedades, então numa carne de panela, ou no bife, nem precisa tirar a casca, é só lavar e colocar o alho lá inteirão, o gosto não fica acentuado [então pra quem não curte o gostão forte, se safa e é bom pra saúde, olha que beleza!]
E fazer biscotinhos fritos na cozinha, passá-los em açúcar e canela? Ah! É de comer rezando no milho... Lembro-me de minha irmã mais velha fazendo os famosos bolinhos de chuva, ô tempo bom, dá saudade da ingenuidade daquele tempo, de ficar ali com ela, e comer rindo, porque essa minha irmã me faz rir...

Meu primeiro livro de culinária, foi uma série de nove livrinhos vermelhos, que meu pai me deu, eu tinha uns 8 pra 9 anos, eram de capa dura, e ensinava o beabá todinho, do mais simples bife, até o bolo de mármore, que até hoje é meu carro chefe.

É... cozinhar é mágico, e como diz Rubem Alves, nos deixa bem próximos as feiticeiras, hum... quem sabe sou uma delas!



texto e imagem by Solange Mazzeto

sábado, 15 de agosto de 2009

Água



um paladar líquido
blusa que escorrega
sede
um gemido
[em um 'q' de urgência excitada]
frio na barriga
absinto

escrita by Solange Mazzetoimagem: desconheço a autoria

sábado, 8 de agosto de 2009

Manias

ciladas vazias
abrir a porta
caminhar na rua

ver o som
que faz meu pé

caminhar sozinho
burlar o Graal
ciscar no fundo
sem sinal

ver brilhar o escuro
te falar baixinho

velar seu medo
levantar bem cedo
macular [meu] segredo



by Solange Mazzeto

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

É ... lembranças



são tantas, minhas memórias latinas, minhas memórias frescas, diárias, escondidas, ardidas...
memórias de um som que ia de um coração ao meu ouvido esquerdo, tão bom o ribombar ritmado, bombástico, sonífero...
algumas peças soltas de um quebra cabeça de lembranças pairam ao redor dos meus olhos, ali vejo rugas, lágrimas, fios de esperança
‘vejo’ uma meia de um pequeno pé, lembranças adormecidas até de um ‘xulezinho’
memórias de braços rechonchudos enlaçados no meu pescoço, com um leve tapinha nas costas, um cheirinho terno...
lembranças são balanças que a gente pendura no peito e pega uns momentos pra aguentar seguir adiante...

é... lembranças...


texto by Solange Mazzeto

imagem: desconheço a autoria

domingo, 2 de agosto de 2009

Cartas de amor



Cartas de amor

uma profusão de idéias, um calor agudo
uma flor em botão

a pétala que cai entre a dor do espinho
e a memória
...



Solange Mazzeto [texto]desconheço a autoria da imagem

terça-feira, 28 de julho de 2009

Férias

Uma tarde de férias. Ali fomos nós assistir Harry Potter, calçamos botas, agasalho pesado, um batom na boca da mãe, da filha um brilho de morango, mãos dadas, cabelos ao vento, embaladas no ritmo que o amor tem, bilhetes comprados, chocolate comprado e compartilhado, nada de pipocas, não estávamos afim, nem de refrigerante, uma água com gás e outra sem gás.
O filme começa, já assistimos os outros, esse a filhota já tinha assistido e dito: não tem nada a ver com o Livro, cortaram partes importantes e ‘enfeitaram’ com o que não devia...
Como não li o Livro, eu gostei do filme. Um filme que faz pensar em magia, em poder, em ‘fantasia’.
Tem o toque todo fantasioso, mas sei lá, tem algo de tão mágico também, tão bom de ver o lado bom, o lado mau, parece que as histórias sempre se repetem, sempre tem o lado perverso, o lado sombrio, e o lado da luz, da esperança...
Além de tudo, tem o lado da bondade ingênua, da confiança plena, da morte e da vida.
De lá, fomos comer algo, bater pernas no Shopping, ver blusinhas aqui e ali, pés doendo dos saltos, bonito pacas mulher de salto, mas a gente sofre um pouco com isso, mas é elegante, sem querer a gente se apruma se empluma pro andar ficar mais cativante.
Enfim, uma tarde divertida, onde o tempo tão chuvoso, não despertou em nós a agonia, a depressão da falta de sol. Sampa anda cinza, tomara que São Pedro pare de ‘chorar’ e que o sol volte a brilhar.

texto by Solange Mazzeto

segunda-feira, 27 de julho de 2009

Amor comprido

é um amor comprido
destilado
com cheiro de
saliva molhada no leite


é uma saudade que vai
e
não volta
que volta
e
que vai
e
bate
e
encontra um peito cansado de guerra
mas cheio de vida e mistério
mas não desses mistérios nervosos...


é um jeito sério de
sentir
com algo de engraçado
uma mistura que
inebria


Desse amor comprido
garanto-me a vontade da alegria
é um prazer tão pleno, tão bonito,
que os olhos salgam
e
piscam...



texto by Solange Mazzeto

sexta-feira, 17 de julho de 2009

Miragem translúcida

sacudia o céu
num rosa tom choque
camuflado em rapel

tua imagem
minha

sacudia o vento
em tons marfins
em tom pastel

tua viagem
minha

sacudia o véu
cujo farfalhar
lembrava-me

teu gemido
meu



by Solange Mazzeto

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Guardo o amor dobrado




guardo o amor dobrado,
com papel timbrado
num selo real

guardo esse amor
que nasceu nas entranhas
gerado em pacto natural

guardo esse [meu] amor
no conceito perfeito
de duas almas de peito

guardo [você]
meu amor

guardo [você] amor

sim eu
o
guardo

texto by Solange Mazzeto
desconheço a autoria da imagem

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Almas... Todas

canta a viola no riacho
com o mundo rodando lá fora
esvai o céu com a acidez da mata,
o bicho solto durante uma madrugada
o peão vem solto e leva uma toada

murmúrios no campo
vela a vapor da estrada
a poeira está já a muito acelerada

paz, só isso que um homem quer
a tal da sonhada paz
que não vem de nada
só sopra dele mesmo
no fim da estiada


texto by Solange Mazzeto

terça-feira, 14 de julho de 2009

A COISA

A Coisa

A gente pensa uma coisa, acaba escrevendo outra e o leitor entende uma terceira coisa... e, enquanto se passa tudo isso, a coisa propriamente dita começa a desconfiar que não foi propriamente dita.

{Quintana}

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Fênix, sempre

fogueira,
tava quente, foi quente, pipocas explodindo
quente, muito quente, pelando
tomates na mão, tetas na mão, faces delirantes
explosão

cinzas inteiras
um sopro
e tudo
feneceu

tudo menos eu
me mantive bem
mesmo chamuscada

mas
...
salva!

texto by Solange Mazzeto

sábado, 11 de julho de 2009

Dia de [muita] chuva




Era uma manhã de sábado com chuva, tinindo lá fora, eu estava só em casa, filha já crescida, em férias e viajando, uns poucos dias, mas era quase estranho e ao mesmo tempo bom estar ao velho gosto de estar só, de ouvir minha própria respiração, de chorar uma lágrima, de suspirar pelo canto da sala, de cantar a música antiga das Frenéticas em frente ao espelho, e gargalhar de mim mesma, comigo mesma...
A chuva incessante não para um segundo, até pra dar comida pra minha cachorra, tive que ir de guarda-chuva, meio correndo, pra não me molhar...

Ia sair, ia ao cinema ver a Era do Gelo 3, ia só, porque gosto de ir só ao cinema, não sempre, mas pra variar eu curto isso, rir só, no meio de tanta gente rindo junto.

Gosto de ver quem chega ao cinema, como chega cada um ao seu estilo e jeito, a maioria com pipocas enormes, os sacos de pipocas estão cada vez maiores e com refil, mas acho as pipocas meio murchas, raramente estão fresquinhas, dia desses estava no interior de São Paulo e lá sim comi pipocas feitas na hora, com bastante molho de pimentas, coloquei tanta pimenta que escorregou pela minha mão, e me lembrei da minha infância... E de minha adolescência, tempo bom pra recordar. Dinheiro escasso por vezes, mas eu tinha uma alegria ímpar, tudo era bom pra mim, o passeio, o lanche, o sapato que só ganhava uma vez ao ano, em dia de Natal...

Melancolia saudosa, tempos esvoaçante de vestidos esvoaçantes, acho que é por isso que até hoje gosto muito de colocar vestidos, a sensação me agrada, restaura sempre algo de bom e prazeroso da minha vida.

Quase agora me vem à mente o gosto do beijo, beijar é bom né! O meu primeiro beijo foi ruim, muito ruim, cheguei em casa, escovando os dentes, a língua, o rosto, achei muito melado, babado, mas depois fui gostando e até hoje gosto muito do sabor do beijo na boca, o roçar da respiração, o estalido de beijinho rápido, o gemer do beijo demorado...
Mas, enfim, estou só num sábado pra lá de chuvoso. Vou acabar saindo de casa, acho que o ‘só’ já está me deixando estranha...





foto e texto by Solange Mazzeto

Camuflagem

Capas ao redor dos olhos, vestígios de falta de amor, de conceito, de educação. A mãe nada tem com isso, ou muito tem não me importa, nem tudo é culpa da mãe, insisto nisso, porque quantos marginais conseguem viver bem numa sociedade caótica, onde ele próprio foi filho de desastres de berço, conheço alguns, graças aos Céus tem gente que consegue sobreviver ao olho do furacão.

Minha mãe costuma dizer que sempre temos anjos ao nosso redor, Anjos de Deus que acampam ao nosso redor e nos protegem e nos guiam! E tem sim, pois Deus não é gente, mas Ele se faz gente através de nós [frase do querido Luís Gasparetto]

Mas, pra não perder o fio da meada, quanta gente coloca uma camuflagem e age assim durante milênios, sem quase nada querer aprender?[É porque pra aprender a gente tem que querer!] Alguns, e infelizmente conheço gente dessa natureza.

A mentira tem um fedor, que reconheço de longe, sabe que às vezes, eu quero me enganar e achar que estou 'sentindo' demais, é faço isso, afinal tenho meu instinto animal de camuflagem também, mas o legal em mim é que distingo isso em mim, aí é um grande passo pro meu progresso pessoal e intransferível de viver bem comigo mesma.

Eu gosto de estar comigo, não tenho necessidade de estar sempre rodeada de gente, acho que as pessoas que mais se camuflam, são as que mais têm necessidade de ter ‘acessórios’ a sua volta, estar nunca sozinho, sempre com muitos ‘amigos’ falando e rodeando, sei lá, posso estar enganada, se eu estiver um dia volto atrás disso tudo que escrevi e discursei, mas por enquanto é exatamente o que penso.


by Solange Mazzeto

sexta-feira, 10 de julho de 2009

Ir? Não ir

Ir, não ir, que fazer? Então escuto o som da chuva do lado de fora de minha casa, gotas grossas, curtas e longas, quase uma sinfonia do céu... A cabeça contradiz, é dois não, mil vezes a palavra sim, batendo que nem martelo no cérebro. A chuva poderia ser uma boa desculpa pra não ir, mas seria ao mesmo tempo uma desculpa esfarrapada. E também não sou feita de açúcar, ou sou?
Sabe que acho que sou meio ‘açuquinha’, que derrete com saliva! E então, vou? Fico?
Vou fazer um chá, amornar os lábios, derreter um chocolate meio amargo entre a língua e o céu da boca, sentir descer na garganta e deixar essa sensação crescer em mim, até eu decidir, até eu saber o que quero.
Sou contraditória, peso na balança, os prós e os contras, a balança pesa pro lado gostoso desse ir, mas e o lado ‘crespo’ da história?
Deixo pra lá?




texto by Solange Mazzeto

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Remoço na sombra de uma tarde

Uma tarde com band-aid, um coração meio torto, e nessa estrada lá ia, cantarolando pérolas, ziguezagueando das amebas...
Um pedaço de saudade na goela, uma pedra atirada no poço da covardia, um ou dois movimentos de pálpebras salgando a face.
Vontade de esfregar a lâmina de corte na ferida e abrir até escorrer sangue. Mas não havia mais vida nisso...
O mundo roda devagar quando a dor incomoda os ânimos. Cada qual faz seu mundo, miúdo ou felizmente graúdo.
Me sento na beirada da atitude, entro de soslaio, ou inteiramente faceira?
Claro que faceira, prefiro o corte na mão, do que a covardia de não tentar...
E assim remoço nas sardas de um rosto... [o meu]


by Solange Mazzeto

A hora do umbigo

O cheiro entrava, as narinas amanhecidas sentia o aroma de um olhar comprido, que ia da face até o umbigo, a vida mergulhava em rosas, todas sem nenhum espinho ou artifício, o adubo era escorregadio, fino... melancólico...
O café inalava a lembrança [quase tão forte, quanto aquele café que ela fazia...]
[O mundo é mesmo bolha de sabão quando a atmosfera eclode].
A fotografia estava ali pra ela espiar. Aborrecida com tanta ameba florindo seu jardim, dá o basta de misericórdia por ela mesma. Sobe ao banho, deixa sua pela macia e retira o esparadrapo do umbigo, o deixando falar...


by Solange Mazzeto

sábado, 4 de julho de 2009

Apresento à vocês meu poema que foi musicado

Melodia e voz: Carlos F. Ribeiro
Letra: Solange Mazzeto
Filmagem: Marlene Alves

http://www.youtube.com/watch?v=48Ul0I_Ix98

TODAS




toda manhã

ela se levanta

e senta na mesa com petulância

levanta a sobrancelha que nem criança

sacode o destino na lambança



toda tarde

ela alucina na distância

que tem o pé na abóbora de trança

que tem a ginga na saia e na dança



toda noite

ela fica na parede

encostada na janela

debruçada na calçada

vivenciando a sede que [a] balança


texto by Solange Mazzeto

desconheço a autoria da imagem

O que sou






sou feita de retalhos coloridos

gargalho livre

vôo pelo espaço

sou feita de espuma de sabão

sumo de limão

colcha pelo chão

adoro comer pão

não consigo viver e criar [bem] sem a tal da paixão

sou meio sapo no lago

disciplinada com bico de guardanapo

o que sou, é o que vejo, o que não sou, não dou conta

é só [coisa de] momento...

posso amar e ‘desamar’ em questão de segundos inteiros

isso é só questão de tempo

[mas o que é o tempo?]

se amo, é porque gosto, se não gosto não tem solução

mas amo fortemente, até quem não tenho direito

sou, contraditória...

vivo para o agora

é a solução de quem sabe que não tem hora


by Solange Mazzeto [imagem e texto]

Razões

"o olfato sabe de razões que o olho desconheçe"


frase by Solange Mazzeto

Prazer

em meio a sedas

toalha de banho

o cabelo preso no alto

uns fios escapam

água no seio

escorre lambendo a barriga

os pés sentem o espaço e voam...

livre

qual passarinho que sai do ninho

fresca, qual chuva de verão

térmica

.

.

.


by Solange Mazzeto

Só o tempo



era uma questão de tempo, de charme, de oportunidade

um estado febril de paixão, de náusea, manuseio, instabilidade,que pode levar a estabilidade

pra cada um, um meio e uma verdade, uma maneira de encarar a cara no espelho de mil faces, de ter dom de usar o que sabe e o que não sabe

atitudes passionais, sonhos demasiados na adrenalina, a cabeça cheia de éter, Arizona em cima de um cavalo.

a mente divaga, espaça, recebe, percebe, escapa

o ar chega quente, o inalar que agüente

o volume no cérebro vazou, o líquido da face escorreu e acho que nessa ninguém venceu...



texto by Solange Mazzeto

desconheço a autoria da imagem

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Sombras

Sombras



o bule sobre a pia

cheira café frio



a melancolia queria colo



um dedo na memória

um rio sem saber



olhos adormecem

ao sabor do sal


texto by Solange Mazzeto

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Pensei que não era sem classe pedir...





Pensei que não era sem classe pedir...
...pedir que Deus me trouxesse de volta, a jabuticaba dos dias de meus 6 anos de idade. Ela era tão doce, a casca tão fina... E tinha também a fruta-do-conde na árvore de minha meninice...
E a lua era tão maior que de agora?!
Ainda quando na réstia de luz de minha mente, me recordo de dias desses, o ar aprisionado em meu peito, das mágoas cantadas, saem todas e as asas de minhas costas voam contentes...
Não sou uma velha pra escrever assim, a meninice ainda clareia meus sonhos, minha boca ainda sorri em riso aberto, mas meu peito anda se fechando, quase calmo e sereno, e disso tenho é muito medo.
Mas, de medo, aprendi que é um fedelho de calças compridas, que destrói os ossos, e as vias de respiração, soube que medo derrete células, medo é um caroço de abacate na goela, e como tive a divindade de aprender a lidar com o tal, o mato agora e sem receio. Vai-te longe, oh! Sem graça, vai-te longe de mim...
Agora que aprendi a pedir, peço a Deus que o compreenda, e me compreenda afinal sinais de gelo, fumaças de alucinação, são fantoches da ira e da fraca imaginação...
Se te amo, eu te amo, e não tem mais solução, no meu seio estás guardado e deitado em meu coração, e sabes? O imagino sempre contente, com ar de gente satisfeita, qual gato estirado ao chão, daqueles gatos que amam uma réstia de sol, na brisa da janela, compreende? E sabe se esparramar sem medo, porque gato não tem medo de trepar na janela mais alta do sonho e miar, pedindo leite e um pouco de atenção...
Agora que sei pedir, peço, oh! Deus! Livrai-me sempre de qualquer entonação mais dolorida que eu possa vir a ter, por falta de minha própria atenção!
Dai-me Senhor o desejo de continuar atenta, com os olhos fogosos num céu ditoso de estrelas, onde a lua e o sol se vestem da mais macia seda,e que eu possa cavalgar na brisa, deixando a mente ser varrida pelos Elísios campos do céu...


texto by Solange Mazzeto

desconheço a autoria da imagem

Dá-me a tua mão [Clarice Lispector]

Dá-me a tua mão
Clarice LIspector
Dá-me a tua mão:
Vou agora te contar
como entrei no inexpressivo
que sempre foi a minha busca cega e secreta.

De como entrei
naquilo que existe entre o número um e o número dois,
de como vi a linha de mistério e fogo,
e que é linha sub-reptícia.

Entre duas notas de música existe uma nota,
entre dois fatos existe um fato,
entre dois grãos de areia por mais juntos que estejam
existe um intervalo de espaço,
existe um sentir que é entre o sentir
- nos interstícios da matéria primordial
está a linha de mistério e fogo
que é a respiração do mundo,
e a respiração contínua do mundo
é aquilo que ouvimos
e chamamos de silêncio.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

Conjecturas



O céu está muito estrelado, a noção dos dias tortos deposita na mesa, uma goteira de desatenção. Um chá servido com carinho faz o milagre do agora, ser real.
Não há nada vazio, e tudo pode ser de um vazio muito profundo.
A pedra comprada é violeta, o presente não é esperado, mas será dado amanhã.


escrito by Solange Mazzeto

desconheço a autoria da imagem

Sete luas



fabuloso tempo
onde nasce e morre
o desejo

houve o sopro da alegria
em rimas

houve a sorte de ter
salivas
e
saliências

nesse tempo
[ sete luas]
almas se fundiram

houve pouco tempo para o sono
[com medo de acordar e ver que era sonho]

mas foi sonho?
por favor Vida me diga...




poema by Solange Mazzeto
desconheço a aurotia da imagem

quinta-feira, 4 de junho de 2009

Olhe...



Olhe pra vc, não no espelho de vidro, mas no espelho da tua bondade, no espelho da tua
auto -consideração, e fique feliz por si, festeje essa felicidade, no teu sorriso heim!


[ texto:Calunga por Gasparetto]


imagem: Solange Mazzeto

domingo, 31 de maio de 2009

Tudo é [quase] questão



ser, não ser

é a questão do saber

do não saber

do ter

do não ter

do encontro, desencontrado em tanto beco e tanta estrada

um ‘zumzumzum’, um arrepio

uma idéia [des]esperada

um anjo morno

um ativo

a oração...

tudo é válvula de escape

um céu sem nuvens

o pássaro que voa bem alto

a lanterna de papel...

e tudo vira assunto besuntado em lágrimas e sorrisos estreitados

o Universo conspira, inspira

reclama, manda recadinho torto

a vida ganha, perde, lava...

a fita da vida afrouxa, esgarça, prende

... desaparece no anoitecer [amanhecer] das pálpebras...



imagem e texto by Sole Mazzeto

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Sempre? Sempre



Sempre? Sempre



sempre quis uma cabana, o mar,

passarinhos ao redor

borboletas amarelas pra olhar



sempre quis um amor de verdade

daqueles que não escondem nada

e falam tudo



sempre quis uma mão que pousasse

além do meu seio

que sentisse além do anseio



sempre quis uma voz que me acalmasse

e me abrasasse

que me despisse e me cobrisse



sempre pedi a Vida

isso tudo

para sempre



mas na realidade

[que muitas vezes é tão dura]

o sempre, é só uma ilusão

...


texto by Solange Mazzeto
desconheço a autoria da imagem

sábado, 2 de maio de 2009

Poema doce



desejo um poema doce
que escorra mel
onde a delicadeza, se mescle com a reverência

calada no seio da noite
percorro lábios
acho vogais

meu corpo se vai
num trem sem saída
num labirinto de junco

alcanço tua atmosfera
recrio tua selvageria
arrepio nos lençóis macios

teu corpo inebria minha vista
meu paraíso é você
é você
meu paraíso é você
você


by Solange Mazzeto

segunda-feira, 13 de abril de 2009

Minha peça

Quem quiser ver um pedacinho da peça q to fazendo, clica aqui

http://www.youtube.com/watch?v=6NIfnCbuxZQ

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Cheiro d’alma



era uma mão que fazia descer a alça do sutiã
no olhar o pedido
o carinho
a emoção

era tesão
eu sabia que era só tesão

mas na ânsia feminina
era mais
era prazer de romance
em amor de cinema

era um apelo de nudez
com mãos espalmadas
no pescoço

na coluna
era um ajoelhar de idéias
desejadas
sem dono, sem esperança

era algo doado
membros acasalados
sem tempo pra acabar

era ímã de bocas coladas
era cheiro e vazão
d'alma


imagem: desconheço a autoria

texto by Solange Mazzeto

terça-feira, 24 de março de 2009

Algumas



algumas palavras
saem tangendo limites
arrebatando seres
cobrindo multidões

algumas verdades
são punhais de ouro
que maculam a alma
e corroem ossos

algumas pedras
são demônios
outras
são covardemente
certeiras

algumas tochas
iluminam o escuro
outras atravessam a lança
da luz

algumas palavras
me caem como gota
de um veneno insano
onde a tragédia
me [re] compõe



by Solange Mazzeto

imagem by Clara Pechansky

quarta-feira, 18 de março de 2009

Delicado



debruçada na varanda da sala
ela lia entre as folhas do café
mascando a ira
da antiga dor

debruçada em tranças fartas
ela sorria
com seu nariz de sarda

a fantasia brilhava
acalmando-a

e ela corria os olhos
entre as nuvens
perguntando-se

o porque
da
vida

e tudo a volta lhe dizia
que o mar renova
que as ondas voltam
e
que
as gaivotas
[depois de um tempo]
voam




by Solange Mazzeto


desconheço a origem da foto

terça-feira, 17 de março de 2009

Resíduos



deixastes
meus joelhos
trêmulos

minha boca
ardendo
meus pés
te
querendo

deixastes
minha mente
fervendo

meus seios
pulsando
meu coração
derretendo

pusestes
teu som
em meu
corpo

teu pulso
em
meu sonho

deixastes
resíduos
de amor


texto: by Solange Mazzeto
imagem: desconheço a autoria

domingo, 1 de março de 2009

Simples



simples roda
que me redonda a vida

um cílio no futuro
um ariscar de letras

sonho refeito
acreditar no começo,
no meio
e no recomeço

simples roçar de dedos
num olhar que
conta alguns segredos

simples crer
que finais não existem
coexistem
consistem
mas não acabam nunca

simples passo
até uma mão estendida
no fiapo de uma vida

simples esfumaçar de lanças
que se desfolham
na ferida

e tudo é tão simples
no simplismo vital
em alarmantes sons
diante do sinal

do sinal
que
faz-nos sentir pássaros



by Solange Mazzeto
desconheço a autoria da imagem

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2009

SIM

sim, eu deixarei viver
o instante de tua boca
na minha boca

e de
minha boca
a tua boca
constantemente

deixarei que me leve
do paraíso a terra
em segundos
...dias, meses e anos...

enxugarei
alguma lágrima tua
que porventura
venha
parar em meu colo

te levarei às nuvens

caminharei contigo
na espuma cálida da noite

e deixarei livre
meu pé para voar
até ti

as brasas
do inferno
congelarei em túmulo,
com a inscrição
‘aqui jaz o medo’

fincarei
a bandeira da paz
em teu
e
no meu coração

porque

de mãos dadas
olhando
as estrelas
que se firmam

no céu em dádiva

está escrito
em linhas douradas,
um tanto comedidamente
tortas

que,
a alma
nossa
é una



by Solange Mazzeto

domingo, 15 de fevereiro de 2009

Pedras do destino

dia de cinzas, um choro franzino, depois agudo,
de fazer gemer o coração mais frio
até que palavras gêmeas chegaram
quebrando a maldição

duas almas misturadas
cheias de anseio e verdade
dois corações juntos
de almas amigas

e anjos com suas trombetas douradas
em raios celestes
fizeram coro
pra lavrar o dia

preciosas pedras do destino
asas violáceas, rasgadas em seda colorida
fizeram vôo e galgaram vidas


texto por Solange Mazzeto

terça-feira, 10 de fevereiro de 2009

Quisera eu ter no corpo o véu da despedida

doce ilusão que me rasgou ao meio
ou em mil
fez-me risos tão sonoros e precisos

ainda sinto tua mão no meu olhar
tão lindo, eras tão lindo
um menino crescido, um menino tão homem

o espio escondida
e dentro de mim, lágrimas capciosas
rezam em latim

não me atrevo mais a ti
não posso amor
o tempo urge

amanhã quem sabe será tarde
ou muito cedo,
pra te responder...

não penso amor, senão desisto
deixa-me aqui na amurada
rústica do anseio,

deixa-me assim tão quieta
como doce de vitrine
ainda a espera de seus versos...

deixa-me



by Solange Mazzeto

sábado, 3 de janeiro de 2009

E era amor



um golpe de ar
num inverno que não gelava
sapato de salto
cinta-liga e atitude

lances de escadas pintadas em vermelho
luz difusa
com fumaça de cigarro
e um cavanhaque

poetas
mesa de bar
vinho tinto, conhaque
e água mineral

num desatino o olhar atraiçoa e voa
a mira é certeira
a boca qual doce, molha-se em caldas quentes
e curvo-me docemente


texto by Solange Mazzeto
desconheço a autoria da imagem

sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

Memórias

Memórias

navegando entre ondas fortes
na minha ânsia senti tua pressão
teu corpo como imã colado ao meu
senti teu tesão tão misturado com o meu que eu não sei até hoje de onde saia tanto fogo

quando me lembro de você, já não é mais com uma saudade dolorida
a recordação é sentida com a alegria que tem um náufrago ao encontrar terra firme

entendi que tudo tem tempo e hora pra terminar
entendi que existem coisas eternas só no que diz respeito à alma e não a carne

um dia talvez, quem sabe, não é...
você nem estará mais em minhas memórias
será como o rio que passa e não repete suas águas...


by Solange Mazzeto

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