sábado, 26 de julho de 2008

Fiz um dia... um lar




fiz da minha casa um lar, onde tinha pudim na geladeira e batatas pra fritar
tinha ainda no quintal um pé de amora, e um banco pra sentar
e das plantas um jardim e um pomar
de repente, não mais que de repente, um cheiro forte de éter
desanuviou a terra e o mar
do dia fez-se breu
uma torrente de latim, me ensurdeceu
camadas de folhas meu mundo derreteu
e tudo aconteceu
não mais o ânimo ganhou vida
emudeceu o pássaro na janela de minha rima
e o mundo do meu lar
desapareceu...


desconheço a autoria da imagem

escrita by Solange Mazzeto

sexta-feira, 25 de julho de 2008

Chorei



é... eu chorei,
do fracasso que senti
me doía os ossos, na água do banho, descia todos os sentimentos
era como se a morte apertasse em desespero a minha garganta
o meu amor
tudo que acreditei um dia
é um dia, eu fui feliz, pari o amor
deixei crescer os sonhos
violei leis de abandono
suspirei um nome santo de um demônio
fiz pão com manteiga na frigideira, ovos fritos com a gema dura
vesti-me de diaba com cinta-liga vermelha
tomei banho de espuma
fiquei bêbada
fiquei sã
agora eu chorei, hoje eu chorei
e acho que estanquei o sangue da ferida
que gemia...


imagem e escrita by Solange Mazzeto

Ausência




Ausência

um buraco lento me lambe
de suspiro sou passante
na dobra da saia, procuro você
errante


escrita e imagem by Solange Mazzeto

Amo e amo



tanto tempo, um dia, nós dois, adolescente de mãos dadas
boca ansiosa, primeiro beijo, derradeiro
nossas roupas, estilo jeans, estilo seda
o tempo pra nós não passa, continuamos juntos por essa estrada
por percalços, dramas, doença, família de um, de outro...
o amor perdura, atura, agüenta, suporta a falta
suporta a agonia de dias sem... você aqui...

nos meus olhos ainda te vejo
o brilho de você ecoa entre meus dedos
o tempo enrugou a vida
mas não a minha alma que continua florida
escrita by Solange Mazzeto
desconheço a autoria da imagem

quarta-feira, 23 de julho de 2008

"Pintas"




"PINTAS"

Pintas que vejo
e pulsando de desejo
quiçá, um dia, meus lábios sintam
(que não em pensamento )

pontos de mar escuro
refletindo teus pedaços de prazer tão certos
luzes que envolvem e fecham o circulo
dos sonhos de olhos abertos

pintas que beijam e lambem
como derrame de tinta numa tela
aconchego de pelos e pele atiçando meu fetiche
desenhado com as gotas mornas de tua seiva

que
pinta
borda
transborda e
goza...

© Fábio Reoli [o poema]
foto de Solange Mazzeto
tratamento da foto por Jean Carlo

terça-feira, 22 de julho de 2008

Da amargura, a sanidade da alfazema



hoje amanheci amargurada, estranhamente aborrecida, com o nada... ontem a noite, cutuquei a onça com vara curta, de tarde, eu tinha sido muito burra, queria ter ligado e dito, oi como você está sem mim? ou nem percebeu que eu não estou mais na sua vida?
Perceber que você não faz falta nenhuma na vida de quem você amou, ama, ou ainda nutre um bom sentimento que sai do seu coração e abrange o oceano todo, é chato!
mas eu não perguntei, não tive coragem pra tanto, desfiz o encanto de olhar na janelinha, preferi o quarto escuro, o breu que um dia me tirou a linda visão que eu tinha... onde e como está esse breu? essa pedra ferina, esse estorvo? sabe que eu me dei conta que nem quero mais saber? não mesmo!
agora estava aguando o jardim, relembrando de fatos históricos pra mim, lembrei que um dia li, que plantar alfazema traz sorte, e aguar ela, dá o que?, mais adiante no quintal, vi a arruda, umas folhas secas amarronzadas, sinal que o ‘mal’ foi pra ela, antes que pra mim...
li que as plantas são criaturas mais que puras, que sempre dão, sem pedir em troca...
tive fases assim, onde só dei, sem nada querer em troca, mas o cara achou que eu queria ele inteiro, todo dia em casa, arrotando e soltando peido...
então, corri do quintal pra dentro, e peguei amendoim torrado e seco, e sentei pra escrever...
quantos preconceitos tenho? quantas palavras soltei sem querer? ou querendo?
a vida fica fútil quando não estou sendo ‘direito’, uns dizem, eu não sei muito da vida do outro, sabe que é uma coisa que não me interessa mesmo? cresci numa cidade pequena, onde o olho das pessoas são grandes demais pra ver o rabo do sujeito, mas eu abominava isso, e até hoje não curto isso direito...
acho avesso demais, espiar os outros por dentro, se querem me contar a contento, ouço com muito zelo, mas senão, fico no meu conceito...
fiz até uma trova pernambucana, risos ecoam de mim agora, tenho sangue nordestino, arretada, sou, não tem [mais] jeito...
às vezes, escapa uma gargalhada de mim mesma, o aperto no peito evapora, o que faço do agora?
volto a aguar as plantas, lavar o quintal o tempo está seco, há dias que São Pedro não quer saber de mandar água...

escrito by Solange Mazzeto
desconheço a autoria da imagem

Adiante



Ir pra onde ir, cavar o poço e subir, tentar de novo, existir...
A meu ver, fazemos isso centenas de vezes ao dia, ao decorrer de sonhos, que exalam a magia...
O mundo por vezes, é gigante demais, assustado demais, é gente se matando de amar, é gente traficando um cocar...
A natureza progride mesmo apunhalada, ela resiste, a barata não morre, os pernilongos, são cães de morte, o morcego faz um zumbido febril, mas enxerga além do norte...
A calamidade pública interrompe uma vida de poucos anos, desespero, guerra na cidade linda, o mar absorto dá ondas, o sol, apesar de tudo, ilumina, e a cidade revive as custas da paisagem linda de morros e alamedas ornamentas com túneis, onde o velocímetro corre soltando fogo...
Que rumo tomar? Pra onde ir?
Não tem o que sustentar... Talvez a fé... O subir de joelhos a escadaria do Senhor do Bonfim, acender uma vela branca pra paz, uma verde pra saúde, uma rosa pro amor poder entrar nos lares aflitos, como se vive depois da morte de um filho? Me custa o coração pensar, pesar...
Há dias em que me vejo encurralada, onde parece que escrever poemas é insignificante diante de tanta tragédia, mas a tragédia sempre existiu e os poetas sempre estiveram vivos, escrevendo, os atores sempre estiveram atuando, fazendo o povo sorrir diante da própria lida, da labuta, da dor...
Aí, entra de novo, a fé, o sol, a flor a se abrir, então, escuto um canto animado de um pássaro largo, que grita, arrebentando o céu azul que brilha, me sustento na paisagem, como Alberto Caeiro, e amo a vida, não porque sei o que ela é, mas sim porque ela sendo a vida [minha e de tantos outros] amo-a por isso...
Adiante, que isso é vida!

escrito by Solange Mazzeto
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