terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Aparição amorosa

Doce fantasma, por que me visitas
como em outros tempos nossos corpos se visitavam?
Tua transparência roça-me a pele, convida
a refazermos carícias impraticáveis: ninguém nunca
um beijo recebeu de rosto consumido.

Mas insistes, doçura. Ouço-te a voz,
mesma voz, mesmo timbre,
mesmas leves sílabas,
e aquele mesmo longo arquejo
em que te esvaías de prazer,
e nosso final descanso de camurça.

Então, convicto,
ouço teu nome, única parte de ti que não se dissolve
e continua existindo, puro som.
Aperto... o quê? a massa de ar em que te converteste
e beijo, beijo intensamente o nada.
Amado ser destruído, por que voltas
e és tão real assim tão ilusório?
Já nem distingo mais se és sombra
ou sombra sempre foste, e nossa história
invenção de livro soletrado
sob pestanas sonolentas.
Terei um dia conhecido
teu vero corpo como hoje o sei
de enlaçar o vapor como se enlaça
uma idéia platônica no espaço?

O desejo perdura em ti que já não és,
querida ausente, a perseguir-me, suave?
Nunca pensei que os mortos
o mesmo ardor tivessem de outros dias
e no-lo transmitissem com chupadas
de fogo aceso e gelo matizados.

Tua visita ardente me consola.
Tua visita ardente me desola.
Tua visita, apenas uma esmola.



Carlos Drummond de Andrade

4 comentários:

Victor Gil disse...

Querida amiga SOLE.
Nada melhor para acabar o ano que um poema de Carlos Drummond de Andrade.
Venho também desejar que tenhas um Bom Ano Novo de 2010.
Que todos os teus sonhos e projetos se realizem.
Beijos minha boa amiga.
Victor Gil

Regina Fernandes disse...

Drummond encerrando 2009... pra que mais? Maravilha!

Feliz Ano Novo!

Bjs

Flavia disse...

Drummond? Li tudo pensando que era sua! ;)

Sole disse...

Sim Drummond, eterno poeta! bj

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